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#Conto025 - Abertura do Carnaval (Festa da Carne)

#AndréMartins #CasadosContos #Wattpad #FestadaCarne #AberturadoCarnaval #Evangélico #Religião


SINOPSE

Ao longo de 8 capítulos, acompanhamos o florescer sexual de Fabiano, um evangélico de 17 anos que cresceu retraído dentro das rédeas controladoras dos pais religiosos e conservadores. A aventura começa quando ele descobre que vão viajar para Israel durante todo o recesso de carnaval, não fosse por um detalhe crucial na hora do voo: Fabiano tinha medo de avião. Depois de muita conversa e promessa de oração, ele se vê sozinho em casa pela primeira vez na vida, longe das correntes que tanto o prenderam por 17 longos anos. E bem durante  a semana na qual a cidade pega fogo e todo folião pisa no mesmo chão. Abram alas à Festa da Carne de Fabiano! Depois disso, talvez ele nunca mais seja o mesmo.



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Lembro-me bem de todo o contexto que me levou a tomar aquela decisão. Dezessete anos de vida dentro de um molde conservador e mega restrito de hábitos, tudo porque meus pais eram evangélicos. Sem refrigerante, sem álcool, sem drogas, da escola direto pra casa e, mesmo naquela idade, eu ainda fazia parte da galera do transporte escolar. Igreja às terças, quintas e domingos, várias horas de vigília no sábado, muito jejum e oração. Sempre as orações. Até então, eu só me ajoelhava pra isso, nem sonhava com tudo que estava prestes a acontecer na minha vida. A cabeça tomada de novas curiosidades e desejos, vontades e, pra tudo isso acontecer, eu tive a certeza de que eu mesmo teria de quebrar o ciclo. Quando cheguei em casa na sexta-feira, meus pais já estavam com todas as nossas malas prontas, porque nem privacidade eu tinha, e ainda devia estar sempre sorrindo, pra não deixá-los desconfiados de qualquer coisa. Se eram assim normalmente, imaginem com a pulga atrás da orelha? Entrei pela sala e minha mãe veio com a mão no meu queixo. 

- Está pronto, meu amor? Vamos sair já, já! 

Sorri, mas por dentro estava aflito. Lembrei-me das colegas de escola marcando vários encontros e desencontros ao longo do carnaval, planejando saídas e reuniões com outras pessoas e eu tendo que ir pra Israel. Desde pequeno, em dezessete anos de vida, nunca havia ficado uma só hora longe dos meus pais, tirando as aulas nos dias de semana. O pessoal do colégio devia me achar mó riquinho mimado. 

- Acho que sim.. - respondi. 

Ela mesmo tinha feito minha mala, então era óbvio que tava tudo pronto. Fui até meu quarto e verifiquei com muita relutância que não tava faltando nada, nem uma cueca, porque até nisso meus pais mexiam, de tão reguladores. Pouco sobravam conversas entre nós, apenas ordens, exigências, rotinas e métodos. Ah, e quantos métodos! Meu pai era muito pior nesse sentido, tinha que acordar todo dia e fazer a cama sem reclamar, do jeito dele, nunca do meu. 

- “Primeiro você dobra aqui, ó.. Não pode começar por baixo, se não fica torto!” 

Mania de ex-militar, ainda mais quando entra pra igreja e vira pastor, aí pronto. Eles seguiam a religião e me levaram junto, já que eu tava sempre perto dos dois. Eram os únicos na família que pertenciam à crença, com exceção de um tio, irmão do meu pai, que vira e mexe tava numa outra igreja ministrando culto. Desci as escadas com a mente tomada de pensamentos e ideias, ciente de que, não querendo passar o carnaval em Israel, teria de pular a cerca na qual fui criado dentro. A mentira tem pernas curtas, pode ser que sim, mas eu já tinha a motivação inicial. E pela primeira vez na vida, MENTI. Era o começo de uma bola de situações que estava pra se desenrolar ao longo da semana da Festa da Carne, o famoso período que meus pais tanto não suportavam no começo do ano. 

- Tenho certeza que vai ser o paraíso conhecer a nossa terra, Fabiano! 

Minha mãe era a mais animada, e eu tinha que rir pra não dar nenhuma sombra de insatisfação, se não começariam os questionamentos e palestras de meia hora sobre como eu estava errado e tentado, e isso com certeza acabaria em horas de oração ajoelhado. Só não soube por onde começar minha mentira, talvez por não ter o costume de ter que fazer isso. Fui o trajeto todo fingindo que tava dormindo, porém tava mesmo maquinando possibilidades na cabeça, só que sem muito sucesso. Foi quando cheguei lá que percebi que a primeira parte da mentira já havia sido dita: eu fingi que dormi. Não pareceu tão difícil fazer o restante, mas o que um filho evangélico diz pros pais pra não viajar junto com eles, ainda mais depois da passagem comprada e de estar dentro do aeroporto? “Pensa, pensa, pensa!”, pensei. “Se não pensar em algo, vai passar uma semana em Israel! Pensa, Fabiano!”. Estávamos passando pelo corredor até o avião, depois de check-in feito e chamada de vôo executada. Havia desistido de tudo, foi quando, talvez pelo excesso de frustração gritando no peito, as pernas bambearam e perdi o equilíbrio. 

- Que foi, filho? 

Meu pai estava atrás de mim e me segurou pra que não caísse. Eu realmente senti uma tonteira rápida, mas nada preocupante. Só que a preocupação dele me deu margem e aí aproveitei. O suor desceu pela testa e ajudou a causar uma impressão de pânico. Até a respiração prendi, pra ver se a cara ficava no mínimo pálida ou vermelha, tentando não parecer intencional. 

- Fabiano? O que você tem? - minha mãe veio pra perto. 

Eles abriram espaço e começaram a me abanar. 

- Esse lugar.. Essa altura.. 

Olhei pela janela outra vez e me arrastei no chão como se tivesse apavorado. 

- Eu não vou voar nessa coisa de jeito nenhum! 

- Calma, filho! São só 14 horas de vôo e.. 

- O QUE!? 

Mesmo no chão, comecei a engatinhar no sentido de saída da porta, nem aí pra quem tava vendo. A aeromoça tentou segurar meus pais. 

- Olha, é muito comum esse medo, senhora! Deve ser o primeiro vôo dele e... 

- Sim, sim, é a primeira vez. Viu, filho? É normal, não fica assim! - pediu. 

Mas eu já tava saindo como pude pela mesma porta que entrei, descendo os primeiros degraus da escada. Eles vieram atrás e, assim que me vi ao ar livre, comecei a respirar de braços abertos, tomando todo ar que pude, como se não tivesse conseguindo lá dentro. 

- Finalmente! Pareceu que eu ia morrer! 

A aeromoça veio junto e trouxe uma garrafinha de água, que me deu pra beber. Agradeci e aceitei, porque aquilo daria uma impressão ainda melhor à situação. Depois apoiei as mãos nos joelhos como quem tivesse corrido uma maratona, cansado e ofegante. 

- Tá pronto pra subir? - meu pai perguntou com a mão nas minhas costas. 

Olhei pra ele de olhos arregalados e falei. 

- De jeito nenhum, eu nunca vou subir nessa coisa! Olha o tamanho disso! 

Atrás de nós, um avião enorme de grande, várias placas metálicas entrelaçadas. Uma roda seria o suficiente pra esmagar todos nós ali na pista, minha mãe percebeu a entonação séria com a qual disse aquilo. 

- Eu não quero que vocês percam a viagem, mas eu não tenho como ir pra Israel voando. Na verdade, acho que não tenho como ir pra lugar algum voando. Me desculpa! 

Ela abaixou a cabeça e pensou. Eu sabia que a viagem havia sido estrategicamente planejada há anos, por isso estava acontecendo bem durante o carnaval, que eles tanto detestavam. Todo mundo na rua, muita confusão, movimento, energia negativa, brigas, vícios, desejos e libertinagem. As fraquezas dos homens estavam todas expostas como num museu de bizarrices. Uma Festa da Carne constituída por defeitos e orgulhos fantasiados em corpos cheios de fogo, de malandragem e jogo de cintura. Pés de foliões no chão quente, exalando calor de ponta a ponta da cidade do Rio de Janeiro. Eu senti um pouco de tudo isso quando olhei nos olhos deles e dei o meu primeiro ultimato em relação a alguma coisa na vida. 

- Desculpa, gente.. Eu acho que tenho medo de voar. 

Ela então me olhou e sorriu, como quem quisesse se solidarizar com minha fraqueza inventada. Ele esperou um pouco e fez o mesmo, foi aí que finalmente deu um parecer inicial sobre como analisou meu pedido de ficar. 

- Tá preparado pra assumir a casa por uma semana, campeão? 

Por dentro eu soltei fogos, por fora me mantive quieto e calmo como se não fosse grande coisa. Pra completar, ainda resmunguei pra parecer que não seria bom. 

- Vai ser chato cozinhar. - falei. - Mas acho que dou conta! - e aí sorri inocente. 

Pronto, o primeiro caô da minha vida foi um sucesso. O primeiro grande passo em direção à uma semana de carnaval completamente sozinho havia sido dado, agora era só esperar o fogo alastrar.

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Conto do parceiro André Martins. Para acompalhá-lo você pode segui-lo no Twitter (@andmarvin_), no site Casa dos Contos (https://www.casadoscontos.com.br/perfil/226140) e também no Wattpad (@andmarvin).

Vale muita a pena ler todos os seus contos, porque é um melhor do que o outro. Ao longo das próximas semanas a história de Fabiano continua, e pode ter certeza que esse fogo não vai ser apagado tão cedo...

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